Em empresas pressionadas por inteligência artificial, novos canais e ciclos cada vez mais curtos, a pergunta ‘qual tecnologia devemos adotar?’ chega tarde.

Antes dela, é preciso decidir que problema merece energia, o que já se tornou commodity, o que diferencia o negócio e que hipótese ainda precisa ser testada.

Na Master Class Fashion Business de agosto, Simone Pittner apresentou a tecnologia como uma disciplina de escolha, não como uma corrida por ferramentas.

O comportamento muda antes do planejamento

Uma marca com décadas de história planeja o futuro enquanto seu cliente altera hábitos em tempo real. Prazo e prova passaram a integrar o produto. Descoberta e compra atravessam feed, busca, loja, aplicativo e contato com o vendedor. Mudanças corporais em escala afetam grade, modelagem e expectativa de caimento.

Nesse cenário, um planejamento de cinco anos não perde valor, mas precisa conviver com sinais que não existiam quando foi construído. Ajustes realizados pelo alfaiate, medidas anotadas na loja, uso do provador virtual, comentários sobre tecidos e comportamento de recompra podem alimentar design e sortimento.

Estruturar o dado não é um fim. É criar a possibilidade de aprender com aquilo que já acontece na operação.

O retorno pode começar em eficiência

O valor de uma tecnologia nem sempre aparece primeiro em receita. Pode surgir na redução de erro, na velocidade de uma etapa, na capacidade de cumprir prazo ou na energia que o time deixa de gastar em trabalho repetitivo.

Essa leitura orienta investimentos em diferentes horizontes. RFID e reformulação do centro de distribuição respondem a necessidades atuais de estoque e execução. Pesquisas de computação quântica podem parecer distantes, mas funcionam como radar sobre problemas logísticos que, no futuro, poderão ser resolvidos de outra forma.

Simone chamou essa capacidade de ambidestria: operar o presente com tecnologias maduras e, ao mesmo tempo, experimentar o futuro com investimento controlado. Para projetos nascentes, a empresa observa também o retorno sobre a energia aplicada: quanto esforço, atenção e aprendizado a iniciativa exige e que capacidade produz, mesmo antes de virar escala.

Dado só gera valor quando chega à decisão

O aplicativo do vendedor nasceu de uma insuficiência concreta. Falar sobre dados não bastava; era necessário colocá-los na mão de quem se relaciona com o cliente e pode transformar contexto em venda.

O app torna possível organizar campanhas, conhecimento e sinais de comportamento sem depender exclusivamente da memória do vendedor ou de uma operação cara no WhatsApp. A interface pode ser proprietária enquanto motores específicos são fornecidos por parceiros.

Esse arranjo mostra que construir e comprar não são extremos absolutos. Uma empresa pode ser dona da jornada e integrar componentes externos onde eles já entregam eficiência suficiente. O diferencial está em preservar controle sobre aquilo que define a experiência e a vantagem competitiva.

Nem todo dado precisa ser capturado

Personalização convive com privacidade, custo e confiança. O consumidor se tornou mais atento à exposição de informações. A coleta precisa ter propósito claro e respeitar o fato de que ninguém deveria ser obrigado a entregar dados desnecessários para realizar uma compra básica.

Além de mais difícil, o dado se tornou mais caro para capturar, armazenar, proteger e ativar. A questão deixa de ser quanto conseguimos acumular e passa a ser que informação realmente melhora produto, serviço ou decisão.

A tecnologia pode acelerar moda sem artificializá-la

Simone organizou aplicações em três frentes: fashion tech, retail tech e martech. Em produto, a tecnologia pode encurtar o ciclo de desenvolvimento e estruturar referências. Na malha de varejo, pode melhorar disponibilidade, entrega e contexto de atendimento. No marketing, pode ampliar variações criativas e eficiência.

O limite aparece onde a decisão depende de sentido, memória e identidade. Curadoria e estilo não são apenas combinações calculáveis. A tecnologia pode produzir opções, reduzir tempo de preparação e revelar sinais. A validação continua humana.

Automatizar um processo antigo pode preservar o problema

Uma parte relevante das iniciativas de IA fracassa porque aplica tecnologia nova a processos que já perderam sentido. Mapear cada etapa da locadora não teria criado o streaming. A mudança não foi otimizar fitas; foi redesenhar a forma de acesso.

Simone defendeu pensar processos novos, não apenas reduzir pessoas ou automatizar fluxos existentes. Processos repetíveis e de baixa carga simbólica tendem a aceitar mais delegação. Quanto mais pessoal e identitária a compra, maior a necessidade de participação humana. O critério não é o brilho da tecnologia. É a natureza da decisão.

Comprar o padrão, construir o diferencial, testar o opcional

O que se tornou commodity e oferece retorno previsível pode ser comprado. E-commerce, infraestrutura e ferramentas maduras não precisam ser reconstruídos para provar competência técnica.

O que constitui diferencial competitivo merece maior controle e, em alguns casos, desenvolvimento próprio. A jornada do app, o aplicativo do vendedor e agentes ligados à forma específica de operar podem justificar essa escolha. O que ainda é nascente deve ser testado: a empresa limita investimento, mede energia, aprende com parceiros e decide depois se incorpora, abandona ou desenvolve.

O provador virtual ilustra a sequência. Primeiro, uma solução pronta permitiu aprender. Depois que a operação compreendeu o comportamento e o valor da funcionalidade, passou a internalizar partes do sistema com custo menor. A pergunta make or buy tornou-se: o que precisamos aprender antes de decidir?

Adoção é uma métrica de produto

Uma ferramenta não se torna boa porque foi contratada. Torna-se útil quando entra na rotina e muda uma decisão. Engajamento, frequência de uso, encurtamento de ciclo e resultado precisam ser acompanhados depois do lançamento.

O mesmo vale para cultura de inteligência artificial. Letramento genérico pode gerar resistência quando a ferramenta chega desconectada do trabalho real. A virada acontece quando a liderança experimenta, identifica usos concretos e altera sua própria forma de operar.

Escolher é parte da estratégia tecnológica

O excesso de possibilidades cria uma ilusão de urgência: tudo parece precisar ser implantado ao mesmo tempo. A resposta mais produtiva é escolher uma frente em que a dor seja clara, o esforço controlável e o retorno observável.

Uma boa estratégia de tecnologia contém recusas. Recusa construir o que o mercado já oferece bem. Recusa comprar aquilo que representa a inteligência central do negócio. Recusa escalar um teste antes de aprender. Recusa automatizar um processo que deveria deixar de existir.

Moda continuará dependendo de sensibilidade, interpretação e repertório. A tecnologia mais valiosa não compete com essas capacidades. Libera tempo, organiza sinais e amplia o campo em que elas podem atuar.

Conversa completa · 48:14

Ouça a atração e navegue diretamente pelos principais argumentos e pelas perguntas do público.

Parte 1 · 00:00–24:07
Parte 2 · 24:07–48:14

Entrevistas complementares

Em edição

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