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Análise Cultura & Comportamento Série · FM Leaders

Quem sustenta o crescimento

Como marcas de moda transformam liderança, cultura e pessoas em capacidade organizacional — e deixam de depender sempre das mesmas figuras para continuar crescendo.

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5 min de leitura

Capa do volume 7 da série FM Leaders: Quem sustenta o crescimento
FM Leaders — volume 7. Série editorial Fashion Meeting, 2026.

Durante muito tempo, o crescimento de muitas empresas de moda e varejo esteve associado à força de poucas pessoas. Founders com visão clara, lideranças comerciais com intuição apurada e executivos capazes de decidir rápido ajudaram marcas a nascer, ganhar mercado e atravessar crises. Mas o que faz uma empresa nascer nem sempre é o que permite que ela escale.

À medida que o negócio cresce, a complexidade muda de natureza. Novos canais entram na operação, a pressão por margem aumenta, a tecnologia altera processos e a cultura precisa ser vivida por pessoas que talvez nunca tenham estado próximas de quem originou o negócio. A empresa deixa de depender apenas de boas decisões pontuais e passa a depender da qualidade do sistema que sustenta milhares de decisões todos os dias.

É nesse momento que muitas organizações encontram um limite: crescer não é apenas vender mais, abrir lojas ou ganhar eficiência. Crescer também exige formar pessoas capazes de sustentar o que foi construído.

Da liderança que resolve à liderança que desenvolve

Juliana Rissardi, mentora e consultora em liderança e desenvolvimento organizacional, resume a transição: “A competência que faz uma empresa nascer não é a mesma que faz uma empresa escalar”. A liderança que resolve tudo no começo pode se tornar um gargalo quando a organização precisa multiplicar sua capacidade de decisão.

O salto de maturidade acontece quando líderes deixam de ser os principais solucionadores de problemas e passam a atuar como desenvolvedores de pessoas, construtores de contexto e distribuidores reais de autonomia. Isso não apaga a força dos founders ou das lideranças centrais. Transforma essa força em cultura, critério, repertório e capacidade coletiva.

Mauro Pimenta, diretor de Pessoas, Cultura e Performance da Privalia, parte de uma leitura semelhante: quanto mais rápido o negócio se move, menos eficiente se torna a centralização. Em ambientes orientados por dados, metas e mudanças constantes, liderar já não significa controlar todas as respostas. Significa criar clareza sobre a direção e oferecer contexto e ferramentas para que os times executem com autonomia e alinhamento.

Distribuir tarefas não é distribuir poder

Muitas empresas acreditam que estão amadurecendo quando ampliam estruturas, contratam executivos ou criam novas camadas de gestão. Mas a descentralização real não acontece quando a empresa apenas distribui tarefas. Ela acontece quando distribui capacidade de decisão.

Quando isso não ocorre, a empresa pode ficar maior sem abandonar uma lógica pequena. A operação se expande e os canais se multiplicam, mas os critérios permanecem presos a poucos centros de validação. A organização ganha braços, mas não ganha sistema.

A empresa ganha braços quando cresce. Só ganha sistema quando distribui critério, contexto e decisão.

A alternativa à centralização não é a ausência de liderança. É a construção de contexto. Autonomia sem clareza gera ruído; autonomia com contexto permite que mais pessoas decidam melhor, porque compreendem a direção, os critérios e o impacto de suas escolhas.

Cultura em estado prático

A discussão reposiciona o tema de pessoas dentro das empresas. Não se trata apenas de uma agenda de RH, mas de maturidade organizacional. Mariana Adensohn, CHRO e diretora de Gente e Gestão da Loungerie, é direta: a agenda de Gente não é uma estrutura de suporte; é parte do motor da estratégia.

Cultura, nesse contexto, deixa de ser uma palavra abstrata. Ela se torna o conjunto de comportamentos que a empresa repete quando está sob pressão. Mauro Pimenta lembra que cultura não se fortalece pelo discurso, mas pela repetição consistente de comportamentos. Sirlei Kamchen, do Grupo Malwee, reforça a distância entre a cultura escrita na parede e aquela efetivamente vivida.

No varejo, isso precisa chegar à ponta. Uma marca pode ter clareza de posicionamento na sede, mas a estratégia só vira cultura quando aparece na loja, no atendimento, na relação com o cliente e nas pequenas decisões da rotina.

Performance sem exaustão

Retenção não se resolve apenas com benefícios. Engajamento não se sustenta apenas com comunicação interna. E alta performance não pode ser confundida com disponibilidade permanente. Denize Savi, diretora de Felicidade Corporativa na Chilli Beans, chama atenção para essa diferença: as pessoas avaliam bem-estar pelo que vivem todos os dias, não pelo que está escrito no discurso institucional.

Moda e varejo continuarão sendo setores intensos, competitivos e marcados por velocidade. O ponto é criar condições para que as pessoas produzam melhor, por mais tempo e com mais sentido — com clareza, foco, confiança, aprendizado e rituais de gestão consistentes.

Aprendizado como vantagem competitiva

Em um mercado atravessado por inteligência artificial, dados e novos comportamentos de consumo, a vantagem não está apenas em acessar tecnologia. Está em formar times capazes de aprender rápido, interpretar mudanças e transformar informação em decisão.

Tecnologia pode ser comprada, processos podem ser copiados e capital pode ser captado. O que não se replica com facilidade é um time que aprende, confia e compartilha uma direção comum. A automação elimina tarefas; a vantagem aparece quando a organização reposiciona talentos para resolver problemas melhores.

O crescimento que continua

Depois de discutir marca, tecnologia, experiência, operação e supply, o volume 7 da FM Leaders volta ao fator que conecta todos os outros: pessoas. Não como ativo retórico, mas como capacidade concreta de formar lideranças, distribuir poder, sustentar cultura e transformar complexidade em execução.

No próximo ciclo da moda e do varejo, as empresas mais fortes não serão apenas as que tiverem melhores estratégias. Serão as que conseguirem executá-las sem depender sempre das mesmas pessoas, dos mesmos impulsos e dos mesmos modelos de comando.

Este artigo apresenta uma leitura do volume 7 da série editorial FM Leaders, produzida pela Fashion Meeting a partir de entrevistas com Denize Savi, Juliana Rissardi, Mariana Adensohn, Mauro Pimenta e Sirlei Kamchen.

FM LEADERS · VOLUME 7

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SOBRE ESTA PUBLICAÇÃO

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