Em entrevista à Fashion Meeting, Simone Pittner, CTO da Aramis, discute o esforço exigido pelas novas ferramentas, a adoção pelas equipes e o papel do legado nas decisões de inovação.
Ao avaliar uma nova plataforma, a Aramis começa por perguntas conhecidas: quanto custa, que despesa pode reduzir e que receita pode ajudar a gerar. Mas Simone Pittner, CTO da companhia, acrescenta uma preocupação que o orçamento, sozinho, não resolve: quanto esforço será necessário para obter esse resultado?
Na entrevista à Fashion Meeting, a executiva conta que a empresa está começando a estudar o que chama de retorno sobre energia. A expressão amplia a discussão sobre investimento em tecnologia para o trabalho exigido de quem precisa incorporá-la à rotina. “Se eu tô gastando muito esforço, muita energia com pouco resultado, talvez não seja uma ferramenta ou uma plataforma pra nossa adoção naquele momento”, afirma.
Não se trata, na conversa, de um indicador já demonstrado por números ou de uma metodologia detalhada. Simone não apresenta uma fórmula de cálculo. A relevância da observação está no critério que propõe acrescentar à decisão: uma solução pode prometer valor e, ainda assim, exigir um esforço que não se justifica naquele estágio do negócio.
Do atendimento de demandas à decisão de negócio
Simone descreve o posicionamento da Aramis como fashion tech como uma jornada. Além da inovação têxtil, de produto e de design, a tecnologia deve contribuir primeiro para a eficiência das marcas da companhia e, em um passo seguinte, para acelerar os resultados do negócio.
Essa mudança exige uma participação diferente da área de tecnologia. Em vez de apenas receber demandas, ela passa a trabalhar com as demais áreas na construção dos resultados. A discussão sobre qual ferramenta contratar passa, portanto, pela definição do problema e do benefício esperado.
É nesse contexto que o esforço de adoção ganha importância. O retorno financeiro continua na avaliação, mas a entrevista chama atenção para o que acontece entre a contratação e a entrega: o uso da ferramenta pelas pessoas, sua incorporação ao trabalho e a capacidade de transformar recursos disponíveis em resultados.
Ter critérios antes de precisar interromper
Quando um projeto demora a produzir efeito, distinguir aprendizado de insistência pode ser difícil. Simone reconhece que algumas iniciativas acabam se estendendo além do necessário. Sua resposta é definir métricas e critérios no início, quando ainda se pode estabelecer com clareza o que seria um resultado satisfatório.
“Se não se mede, não se conhece”, resume. A executiva relaciona essa disciplina à possibilidade de reconhecer quando o esforço e o investimento já ultrapassaram o resultado que se esperava colher.
Há uma consequência prática nessa leitura: a decisão de continuar precisa ter uma referência anterior ao desconforto de parar. Sem ela, a discussão corre o risco de depender apenas das expectativas de quem defende o projeto ou da impaciência de quem cobra a entrega.
Simone também admite a incerteza. Nem todas as pessoas aderem da mesma forma, nem todos os projetos entregam exatamente o previsto. Os critérios precisam conviver com essa margem de erro, sem que ela sirva de justificativa para dispensar a avaliação.
A adoção aparece no trabalho das pessoas
O engajamento das equipes é um dos sinais que Simone observa. Quando as pessoas percebem economia de tempo ou de energia, explica, encontram uma razão concreta para usar a tecnologia. Ela recorre às ferramentas de IA conversacional como exemplo dessa percepção de utilidade.
O uso, porém, não encerra a avaliação. Na própria resposta, Simone retoma a necessidade de verificar se os outros objetivos estão sendo alcançados. “O ser humano ainda é um termômetro muito importante na adoção tecnológica”, diz.
O mesmo cuidado aparece na discussão sobre dados. Organizar informações vindas de diferentes pontos da operação é parte do trabalho. Extrair uma leitura precisa depende também da capacidade das pessoas de interpretá-las e do conhecimento que o negócio tem sobre seu cliente. Mudanças de comportamento e consumo tornam essa interpretação especialmente relevante na análise apresentada pela executiva.
O que preservar também orienta a inovação
Para Simone, o planejamento ajuda a distinguir uma novidade relevante de uma adoção motivada pelo entusiasmo do momento. Saber o que a empresa pretende construir permite recusar projetos e concentrar recursos naqueles que contribuem para essa direção.
Essa escolha não exige descartar tudo o que veio antes. “O legado importa porque legado é conhecimento instalado”, afirma. Na Aramis, ela o descreve como um ativo que oferece referências de comparação entre passado e futuro e ajuda a reconhecer o que não pode se perder na transformação.
O argumento desloca a pergunta sobre modernização: além de identificar o que precisa mudar, é necessário compreender o valor do que já existe. Na entrevista, essa atenção ao conhecimento acumulado convive com a abertura à tecnologia e com a defesa da avaliação humana das recomendações de máquinas.
O fio que une as respostas é a responsabilidade pela escolha. Investir envolve estabelecer expectativas, acompanhar o uso, aceitar algum grau de incerteza e reconhecer quando um caminho deixou de fazer sentido. A tecnologia participa da estratégia também nessas decisões menos visíveis, tomadas depois do anúncio de uma nova ferramenta.
Fonte: entrevista em vídeo de Simone Pittner, CTO da Aramis, à Fashion Meeting. As citações preservam a fala, com pontuação normalizada. As interpretações editoriais não constituem indicadores de desempenho da empresa.
